Sobre o limiar de 30 de outubro a 1 de novembro, o regresso ao centro e a alquimia interior de um novo ciclo
Há momentos no ano em que o tempo parece comportar-se de outra maneira. Como se algo abrandasse e o invisível se aproximasse do visível. Não é uma afirmação que eu queira impor a ninguém, é antes uma observação que muitas pessoas fazem sem conseguir explicar exatamente porquê. Entre 30 de outubro e 1 de novembro, alguma coisa muda na qualidade dos dias. Os sonhos tornam-se mais vívidos, as emoções mais próximas da superfície, as memórias mais nítidas e a intuição, por instantes, mais clara.
Em muitas tradições ancestrais, este foi sempre lido como um período de limiar. Um tempo em que os véus entre mundos se afinam: entre passado e futuro, entre mente e alma, entre aquilo que mostramos e aquilo que verdadeiramente somos. Convém aqui a mesma honestidade que procuro manter em tudo o que escrevo. Não trago esta ideia como prova de nada. Trago-a como linguagem, uma forma de nomear uma experiência humana que atravessa séculos e culturas, e que talvez valha a pena escutar antes de a descartar.
É a partir deste ponto que nasce também o retiro Entre Mundos, na Casa do Pateo, no Meco, de 30 de outubro a 1 de novembro, e é sobre o que está por baixo desse ponto que quero escrever aqui.
A perda que não foi de tempo
Vivemos rodeados de estímulo, de informação, de urgência e de distração. Corremos para cumprir objetivos enquanto nos afastamos lentamente de nós próprios, e talvez a maior perda do nosso tempo não tenha sido, afinal, o tempo. Talvez tenha sido a capacidade de escutar.
A capacidade de escutar o corpo, escutar o silêncio, escutar os sinais da vida, no fundo, escutar a direção interior.
Hoje sabemos que o estado interno em que vivemos altera literalmente a forma como percebemos a realidade. Estados acelerados geram reação, vigilância e sobrecarga. Estados mais lentos e presentes favorecem observação, integração e clareza. Por isso o silêncio incomoda tanto: porque quando o ruído diminui, começamos finalmente a ouvir aquilo que estava escondido por baixo dele. Grande parte das pessoas não tem medo do silêncio, tem medo daquilo que o silêncio revela.
Este período do ano, com a sua sensibilidade particular, parece pedir-nos exatamente isso. Como se a vida falasse mais baixo, mas mais profundamente… e num mundo que não para, esse convite ao recolhimento tornou-se quase um ato de resistência.
Portugal, os limiares e os lugares que pedem silêncio
No livro que estou a terminar de escrever sobre Portugal enquanto território de ligação, defendo uma ideia que aqui ganha um sentido especial: os territórios não são neutros. Guardam memória, têm ritmo, têm uma presença difícil de explicar apenas pela geografia física. Ao longo da história, diferentes povos regressaram repetidamente aos mesmos pontos, montanhas, confluências de rios, elevações naturais, como se reconhecessem ali condições particularmente favoráveis à contemplação, à iniciação ou à transformação interior.
Tomar, Dornes, Sintra, Arrábida, Alandroal e tantos outros lugares carregam essa qualidade. Funcionam como espaços de amplificação e não necessariamente de forma “mágica”, mas como lugares onde determinadas experiências humanas se tornam mais intensas, mais visíveis, mais transformadoras. Curiosamente, foram quase sempre esses os lugares escolhidos pelas tradições antigas para práticas de silêncio e de travessia interior.
Há um arquétipo, no livro, que me parece tocar diretamente esta altura do ano no final de outubro: é o do Guardião do Limiar, encarnado na figura de Gualdim Pais. O guardião não ergue a fronteira para separar, ergue-a para definir um centro, um interior que merece ser protegido porque guarda algo vivo. A fronteira que ele guardava não era apenas geográfica, era a passagem entre um território apenas usado e um território que volta a ter sentido. E aquilo que Gualdim fez no território, cada um de nós é hoje chamado a fazer dentro de si: reconhecer um limiar interior e mantê-lo consciente, no meio do ruído.
Não será este período entre os dias 30 e 1 precisamente isso? Um limiar coletivo que nos devolve a tarefa de guardar um centro?
No livro falo também de uma charola interior. A charola de Tomar, de planta centrada, foi construída como um centro onde o céu e a terra se procuram tocar através da forma. Mas, mais do que um espaço físico, ela tornou-se, para mim, uma metáfora da própria condição humana. Todos transportamos uma charola dentro de nós: um centro com muralhas (as defesas que construímos), portas (aquilo que deixamos entrar), guardiões (os nossos valores) e, sobretudo, territórios esquecidos, emoções que não quisemos sentir, talentos que não desenvolvemos, partes de nós rejeitadas porque não correspondiam ao que esperavam de nós. São muitas vezes esses territórios esquecidos que nos chamam de volta. Nem sempre pelo conforto mas frequentemente pelo desconforto, pela repetição, pela sensação de vazio apesar das conquistas.
Há uma frase que atravessa estas tradições e que me parece resumir tudo: aquilo que não é trazido à consciência regressa como destino. Aquilo que não observamos continua a dirigir-nos.
A alquimia como linguagem da transmutação interior
É aqui que quero abrir uma segunda porta, ainda com o mesmo cuidado de quem sugere em vez de afirmar. Porque a tradição hermética deixou-nos uma linguagem notavelmente precisa para descrever aquilo que acontece a alguém quando atravessa um limiar destes. Chamou-lhe alquimia, não a transmutação de metais numa retorta, mas a transformação do próprio ser humano.
Robert Ambelain, em A Alquimia Espiritual, abre o livro com uma citação de Robert Fludd que poderia ser a divisa deste retiro: quando o templo for consagrado, as suas pedras mortas voltarão a ter vida, o metal impuro será transmutado em ouro fino e o homem recuperará o seu estado primitivo. Repare-se na sequência: primeiro a consagração de um espaço, depois a vida que regressa àquilo que parecia morto, e só então o regresso à essência. É exatamente o movimento de quem pára o ruído o tempo suficiente para voltar a ouvir o essencial.
O coração desta tradição está numa fórmula atribuída a Basílio Valentim, da qual se extrai a palavra VITRIOL: Visita Interiora Terræ, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem — “visita o interior da terra e, retificando, encontrarás a pedra oculta”. Não há, em toda a alquimia, instrução mais clara para um tempo de véu fino do que esta: a pedra não se encontra fora, encontra-se descendo ao interior, ao território que carregamos dentro de nós. É a mesma viagem que descrevo no livro, a de que a primeira grande travessia nunca foi atravessar oceanos, mas entrar no território interior e aprender a reconhecer as suas paisagens, as suas muralhas e os seus lugares esquecidos.
Mas a alquimia é honesta quanto àquilo que esse regresso exige. A primeira fase da Grande Obra é a putrefação, a fase negra, a do corvo, a da descida. Ambelain lembra-a através destas palavras do Evangelho: se o grão de trigo não morrer, permanece só, mas se morrer, dá muito fruto. Não há transmutação sem que alguma coisa morra primeiro. Antes de começar um novo ciclo, é preciso deixar terminar aquilo que já não sustenta o futuro e é precisamente isto que distingue colapso de reorganização: o colapso destrói sem direção e a reorganização desmonta, com consciência, aquilo que já não consegue sustentar aquilo que vem a seguir.
Este período do final de outubro foi, em muitas culturas, lido exatamente assim, como o momento do ano em que algo se encerra para que algo possa nascer. A natureza recolhe-se, a seiva desce e talvez seja por isso que estes dias parecem pedir menos ação e mais escuta. Não é tempo de semear, é tempo de descer ao interior da terra.
O destino dessa descida, na linguagem de Ambelain, é a Reintegração Universal: não uma fuga do humano, mas o regresso do ser humano à sua condição mais inteira e mais verdadeira. O que ressoa por inteiro com aquilo que chamo, no livro, o novo humano. Não é alguém mais perfeito, mas alguém mais integrado, mais presente, mais capaz de habitar a própria humanidade com consciência. A verdadeira iniciação, dizia eu, não acontece quando adquirimos conhecimento, acontece quando esse conhecimento se transforma em experiência e deixa de estar apenas na mente para passar a habitar a vida.
O que um retiro pode ser, neste ponto exato
Junte-se tudo isto e percebe-se porque o retiro nasce neste ponto preciso do calendário, e não noutro.
Um território que amplifica a experiência interior, um momento do ano em que o véu se afina e a vida fala mais baixo, mas mais fundo e uma tradição alquímica que nos diz que a transmutação começa por uma descida ao interior e por deixar morrer aquilo que já cumpriu o seu ciclo. No meio de tudo isto um convite muito simples: parar o ruído o suficiente para voltar a escutar.
O retiro Entre Mundos não é uma fuga da vida, é um regresso a ti. Um espaço de travessia, de desaceleração e de realinhamento interno, onde trabalharemos não apenas a mente, mas também o campo emocional, energético e simbólico que influencia silenciosamente a forma como vivemos, escolhemos e nos relacionamos. Um encontro para homens e mulheres que sentem que algo dentro de si pede realinhamento, porque antes de começar um novo ciclo, é preciso escutar… e talvez recordar que existem partes de nós que só conseguem ser ouvidas quando o mundo abranda.
Se algo dentro de ti está a responder a isto, este é o sinal.
