Provavelmente já pertences a várias sem te aperceberes…
Já reparaste que há pessoas que conseguem discutir durante três horas sobre futebol, política ou religião… e no fim ninguém mudou de opinião?
Não significa que seja falta de inteligência, é apenas um excelente exemplo de uma egrégora em ação.
A palavra pode parecer estranha. Tem um ar misterioso, quase como se estivéssemos prestes a abrir um manuscrito escondido numa biblioteca templária (brincadeirinha), mas a ideia é bastante mais simples do que parece.
Uma egrégora é, no fundo, um campo construído por pessoas que partilham uma mesma forma de olhar para o mundo.
É feita de ideias, de símbolos, de histórias, de emoções, de hábitos, da linguagem que utilizam, dos rituais que repetem, dos valores que defendem e quanto mais pessoas alimentam esse conjunto, mais consistente ele se torna. Não é porque exista um “ser invisível” a comandar tudo, mas porque todos, de forma consciente ou não, vão reforçando continuamente aquele campo comum.
Nós vivemos mergulhados em egrégoras
A família onde cresceste tem uma, a profissão que exerces também, a empresa onde trabalhas, a cidade onde vives, a religião, a universidade, o clube de futebol (sim… esse também) e até aquele grupo de WhatsApp que promete silêncio e consegue produzir 347 mensagens enquanto vais beber um café… já desenvolveu a sua pequena egrégora.
Sempre que um grupo cria uma identidade própria, nasce um campo comum que influencia a forma como os seus membros pensam, sentem e agem e, muitas vezes, isso acontece sem que ninguém dê por isso.
O curioso é que a egrégora não muda o mundo.
Mas muda a forma como olhamos para ele.
Imagina duas pessoas a assistir exatamente ao mesmo acontecimento e uma vê coragem, a outra vê irresponsabilidade. Uma sente esperança e a outra sente medo. Quem está certo? Provavelmente ambos… dentro da realidade que aprenderam a habitar.
A egrégora funciona como um par de óculos invisível. Não altera aquilo que existe, mas colore a forma como interpretamos aquilo que existe e o mais curioso é que, normalmente, nem sabemos que estamos a usar esses óculos. Achamos simplesmente que vemos “a realidade”.
As emoções são o verdadeiro combustível
As ideias aproximam pessoas mas são as emoções que mantêm uma egrégora viva. Basta entrares num estádio de futebol. Milhares de pessoas levantam-se ao mesmo tempo. Abraçam desconhecidos, cantam, gritam, sofrem, celebram, e durante noventa minutos, respiram quase como um único organismo.
O mesmo acontece numa manifestação, num concerto, numa cerimónia religiosa, num congresso ou até numa empresa quando toda a equipa acredita genuinamente num projeto.
Sempre que muitas pessoas vibram emocionalmente em sintonia, o campo fortalece-se. É por isso que algumas experiências ficam connosco muito depois de terminarem. Não foi apenas o acontecimento, foi aquilo que sentimos em conjunto.
E isso é bom ou mau?
Nem uma coisa nem outra. Uma egrégora é como uma fogueira: pode aquecer, pode iluminar, pode reunir pessoas à volta dela, mas também pode queimar, se deixarmos de perceber que somos nós quem continua a colocar lenha. O problema nunca é pertencer a uma egrégora porque todos pertencemos. Aliás, seria praticamente impossível viver sem elas.
O verdadeiro desafio é perceber quando deixamos de pensar… e começamos apenas a repetir. Quando deixamos de escolher… e passamos apenas a seguir. Quando confundimos pertença com identidade.
Talvez o verdadeiro caminho seja outro
Na minha experiência, o desenvolvimento pessoal não consiste em abandonar todas as egrégoras porque isso seria uma ilusão. Somos seres profundamente relacionais, vivemos em famílias, em comunidades, em equipas, em culturas… o caminho talvez seja mais simples: ganhar consciência e perceber quais os campos que nos influenciam para escolher aqueles que nos ajudam a crescer e, sobretudo, deixar de alimentar aqueles que vivem apenas do medo, da divisão ou da necessidade constante de provar que “nós” estamos certos e “eles” errados. Porque, no fundo, todas as egrégoras se alimentam da mesma coisa: da nossa atenção, da nossa energia e das histórias que escolhemos continuar a contar.
Talvez por isso a pergunta mais importante não seja: “A que egrégora pertenço?” mas antes: “Que egrégora estou eu a fortalecer, cada vez que penso, sinto, falo ou ajo?”
Essa, talvez, seja uma das perguntas mais interessantes que podemos fazer a nós próprios!