Há batalhas que não se vencem. Compreendem-se.
Há momentos na vida em que algo nos toca de uma forma que não conseguimos explicar. Uma palavra, um silêncio, uma atitude de alguém. À primeira vista, pode parecer uma coisa sem importância, mas cá dentro alguma coisa se agita. O corpo contrai-se, a emoção sobe, a mente começa a construir histórias e, quando damos por nós, estamos a reagir de uma forma que nem sempre reconhecemos como nossa.
Às vezes, basta alguém discordar de nós para sentirmos que precisamos de nos defender. Outras vezes, uma simples ausência de resposta desperta o medo de não sermos importantes, ou então alguém nos oferece ajuda e, em vez de sentirmos alívio, sentimos desconforto, como se aceitar essa mão fosse admitir uma fraqueza.
É nestes pequenos momentos, tantas vezes desconfortáveis, que o autoconhecimento começa verdadeiramente.
Não é quando tudo está bem, quando estamos tranquilos e conseguimos falar de amor, consciência e evolução. Mas quando a vida nos toca precisamente naquele lugar onde ainda dói.
O que nos incomoda também fala de nós
É fácil reconhecer aquilo de que gostamos em nós. Mais difícil é olhar para as nossas contradições, para os medos que escondemos, para a necessidade de ter razão, de controlar, de agradar ou de sermos reconhecidos.
Todos temos esses lugares interiores.
Há partes de nós que aprenderam, muito cedo, que mostrar fragilidade era perigoso. Que pedir ajuda significava depender de alguém. Que errar era perder valor. Que, para sermos amados, tínhamos de corresponder às expectativas dos outros.
E assim fomos construindo formas de proteção…
Algumas foram muito importantes que nos ajudaram a atravessar momentos difíceis. O problema surge quando continuamos a utilizá-las muito depois de terem deixado de ser necessárias.
A pessoa que aprendeu a ser forte pode ter dificuldade em admitir que está cansada.
Aquela que aprendeu a cuidar de todos pode sentir-se culpada quando precisa de ser cuidada.
Quem cresceu a sentir que tinha de provar o seu valor pode viver uma simples crítica como uma ameaça à sua identidade.
E quem tem medo de ser abandonado pode acabar por afastar os outros, precisamente quando mais precisa de proximidade, porque nem sempre temos consciência das histórias que continuam a viver dentro de nós.
Entre o que sentimos e o que compreendemos
Gosto de pensar no autoconhecimento como uma viagem entre mundos.
Existe o mundo que conhecemos, aquele onde pensamos, decidimos e explicamos quem somos e existe um outro mundo, mais profundo, feito de memórias, emoções, sensações, crenças e experiências que nem sempre conseguimos traduzir em palavras.
É nesse espaço, entre o consciente e o inconsciente, que encontramos muitas das nossas respostas… mas nem sempre é um lugar confortável.
Por vezes, aquilo que descobrimos contraria a imagem que construímos de nós próprios. Podemos considerar-nos pessoas tolerantes e descobrir uma enorme dificuldade em aceitar opiniões diferentes. Podemos acreditar que somos independentes e perceber que precisamos desesperadamente da aprovação dos outros. Podemos falar de compaixão e, ainda assim, ser profundamente duros conosco e está tudo bem reconhecer isso.
Porque o autoconhecimento não é um concurso de perfeição. Não é chegar a um lugar onde nunca mais sentimos raiva, medo, inveja, tristeza ou insegurança. É aprender a reconhecer o que sentimos, compreender de onde pode vir e escolher, sempre que possível, o que fazemos com isso.
Entre o impulso e a resposta existe um espaço e é nesse espaço que podemos começar a transformar a nossa vida.
A coragem de baixar a guarda
Vivemos num mundo que valoriza a força, a autonomia e a capacidade de resolver tudo. Aprendemos a mostrar que estamos bem, mesmo quando não estamos. A responder «está tudo bem» quando, na verdade, gostaríamos que alguém percebesse que não está.
Mas há uma coragem silenciosa que raramente celebramos.
A coragem de dizer «não sei».
De admitir «enganei-me».
De reconhecer «isto magoou-me».
De pedir «preciso de ajuda».
De conseguir dizer a alguém «tens razão, não tinha visto as coisas dessa forma».
Pode parecer simples, mas para muitas pessoas estas palavras representam uma verdadeira travessia interior.
Porque ser vulnerável implica deixar cair, por instantes, a armadura que nos habituámos a usar e quando baixamos essa armadura, podemos descobrir algo inesperado: não precisamos de estar sempre certos para termos valor. Não precisamos de ser fortes a toda a hora para merecermos respeito. Não precisamos de esconder as nossas fragilidades para sermos dignos de amor.
A verdadeira força talvez não esteja em nunca cair, mas em deixarmos de ter vergonha de precisar de uma mão para nos levantarmos.
As raízes que nos sustentam
Uma árvore não cresce apenas na direção do céu.
Para que os seus ramos possam alcançar a luz, as raízes precisam de encontrar profundidade na terra. Também nós precisamos de raízes.
Precisamos de conhecer a nossa história, reconhecer as nossas dores, compreender os padrões que repetimos e fazer as pazes, tanto quanto possível, com aquilo que vivemos.
Não para ficarmos presos ao passado, nem para justificarmos todas as nossas atitudes através dele, mas para deixarmos de ser conduzidos, sem perceber, por aquilo que ainda não conseguimos olhar.
As nossas raízes não são apenas as feridas. São também os recursos que desenvolvemos, os afetos que recebemos, a capacidade de resistir, a sensibilidade, a criatividade e a sabedoria que fomos construindo.
Olhar para dentro é reconhecer tudo isso. A luz e a sombra. A força e a fragilidade. Aquilo de que nos orgulhamos e aquilo que ainda temos dificuldade em aceitar. Uma árvore não rejeita as suas raízes por estarem escondidas na terra. É precisamente nelas que encontra parte da sua sustentação.
Nem tudo o que nos desperta precisa de se transformar numa batalha
Quando alguém toca num dos nossos gatilhos internos, a primeira vontade pode ser defender-nos, atacar, fugir ou fechar-nos.
Queremos mostrar que temos razão. Queremos que o outro compreenda. Queremos que a sensação desagradável desapareça.
Mas e se, por um instante, conseguíssemos parar?
E se, antes de responder, perguntássemos: Porque é que isto me afetou tanto?
O que estou realmente a sentir?
Estou a responder ao que aconteceu agora ou a alguma coisa mais antiga que esta situação despertou?
O que preciso neste momento: defender-me ou compreender-me?
Estas perguntas não significam que o comportamento dos outros seja sempre aceitável, nem que tenhamos de tolerar aquilo que nos faz mal.
Ter consciência também é saber estabelecer limites. Mas há uma diferença profunda entre estabelecer um limite a partir da clareza e reagir a partir de uma ferida. A humildade ajuda-nos a reconhecer que a nossa interpretação não é a única possível. A compaixão permite-nos olhar para as nossas dificuldades sem acrescentar mais julgamento e a tolerância recorda-nos que os outros também carregam histórias que desconhecemos.
Nem sempre conseguimos fazer isto. Haverá dias em que reagimos, em que dizemos o que não queríamos dizer, em que voltamos aos mesmos padrões.
Nesses dias, talvez o mais importante seja não transformar uma dificuldade em mais uma razão para nos condenarmos. Podemos reconhecer, reparar o que for possível e tentar novamente.
Regressar a nós
Há uma parte muito bonita neste caminho: à medida que nos vamos conhecendo, começamos a precisar menos de representar papéis.
Já não precisamos de parecer sempre seguros. Podemos ter dúvidas.
Já não precisamos de agradar a toda a gente. Podemos ser honestos.
Já não precisamos de vencer todas as discussões. Podemos escolher a paz sem sentir que perdemos.
E talvez, pouco a pouco, deixemos de confundir vulnerabilidade com fraqueza, humildade com submissão e compaixão com falta de limites.
Não nos tornamos pessoas perfeitas. Tornamo-nos, talvez, um pouco mais inteiros.
Mais capazes de reconhecer o que é nosso e o que pertence ao outro. Mais disponíveis para escutar sem preparar imediatamente uma defesa. Mais conscientes das escolhas que fazemos e das consequências que têm nas nossas relações.
O caminho do autoconhecimento não nos afasta da vida. Pelo contrário, convida-nos a vivê-la com mais presença.
A aceitar que há dias de sol e dias de tempestade.
Que nem todas as perguntas têm uma resposta imediata.
Que algumas feridas precisam de tempo, cuidado e, por vezes, de ajuda para serem compreendidas.
E que crescer não significa deixar de sentir aquilo que nos incomoda, mas aprender a relacionar-nos de outra forma com o que sentimos.
Um convite
Da próxima vez que alguma coisa te mexer nas entranhas, tenta não fugir imediatamente desse desconforto. Escuta-o.
Não precisas de lhe dar razão, nem de agir sobre ele. Apenas reconhece que está ali.
Talvez descubras um medo antigo, uma necessidade que nunca expressaste, uma tristeza que aprendeste a esconder, ou simplesmente uma parte de ti que precisa de ser ouvida.
Pergunta-te, com gentileza, o que essa reação te pode estar a mostrar e, se precisares, pede ajuda. Porque não temos de fazer todas as travessias sozinhos.
Talvez a maior transformação não aconteça quando conseguimos controlar tudo o que sentimos, mas quando deixamos de lutar contra aquilo que precisamos de compreender.
É nesse encontro, entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que guardamos dentro de nós, que podemos descobrir uma forma mais verdadeira de viver. Com raízes mais profundas, ramos mais livres e um coração suficientemente aberto para continuar a aprender.
