Há momentos no ano em que a Natureza parece convidar-nos a parar.
Não é porque deixe de haver movimento, pelo contrário, mas porque a sua mudança se torna tão evidente que nos recorda que também nós fazemos parte desse movimento.
Às 01h05 do dia 23 de setembro de 2026, deu-se o Equinócio de Outono em Portugal continental. O sol cruzou o equador celeste e iniciou-se, astronomicamente, uma nova estação. É um instante de passagem.
A luz e a escuridão encontram-se simbolicamente em equilíbrio e, a partir daqui, no nosso hemisfério, as noites começam a ocupar progressivamente mais espaço. O calor recolhe-se, as sombras alongam-se e a paisagem começa lentamente a mudar de cor.
A Natureza ensina-nos novamente uma das suas leis mais simples: tudo tem um tempo para nascer, um tempo para crescer, um tempo para dar fruto e um tempo para regressar à terra.
Alban Elfed: entre a luz e a escuridão
Na tradição druídica contemporânea, o equinócio de outono é celebrado como Alban Elfed, associado à “Luz da Água”.
É um dos momentos da Roda do Ano ligados à colheita e representa um limiar entre duas metades do ciclo: a expansão dos meses luminosos começa a dar lugar ao recolhimento dos meses escuros. É tempo de agradecer aquilo que amadureceu, os frutos que chegaram ao seu termo e as experiências que nos transformaram.
Mas toda a colheita contém também uma aprendizagem mais difícil: não podemos guardar tudo. As árvores sabem disso.
Não discutem com o outono nem tentam conservar cada folha. Quando chega o momento, deixam cair aquilo que cumpriu o seu ciclo e guardam no interior apenas o necessário para atravessar o Inverno.
Talvez Alban Elfed nos coloque precisamente essa pergunta: O que queremos guardar e o que estamos preparados para deixar partir?
O corpo também conhece as estações
Durante milhares de anos, a vida humana esteve profundamente ligada aos ritmos da terra.
Comíamos aquilo que cada estação oferecia, trabalhávamos segundo as horas de luz e reconhecíamos nos ciclos naturais sinais para semear, colher, conservar e repousar.
Hoje podemos viver quase indiferentes às estações. Temos luz durante a noite, calor durante o frio e alimentos vindos de qualquer parte do mundo durante praticamente todo o ano, mas o corpo continua a reconhecer setembro. Sentimos a diminuição das horas de luz, as manhãs mais frescas, a mudança da temperatura e uma vontade progressiva de regressar ao interior.
O Outono convida, por isso, a uma alimentação mais próxima da estação: maçãs, peras, uvas, romãs, abóboras, castanhas, nozes, cogumelos, couves, raízes e tantos outros alimentos que a terra portuguesa oferece neste período. Não é necessário uma rígida prescrição, mas fazê-lo como um gesto simples de aproximação ao lugar onde vivemos.
Também as plantas aromáticas e medicinais que acompanham a tradição popular portuguesa, como o alecrim, a erva-cidreira, os orégãos, o dente-de-leão ou as bagas do pilriteiro, recordam um conhecimento antigo: observar a paisagem era também uma forma de aprender a habitar o próprio corpo.
Não precisamos de regressar ao passado. Precisamos, isso sim, de recuperar a capacidade de prestar atenção.
Um Verão que terminou com uma despedida
Este Equinócio chega-nos acompanhado por uma coincidência particularmente comovente. Na noite de 21 de setembro, quando o Verão se aproximava do fim, morreu Jorge Palma, aos 76 anos. Parte assim, quase no limiar do Outono, uma das vozes maiores do nosso cancioneiro contemporâneo.
Há artistas que escrevem canções e há outros cujas canções acabam por se misturar com a vida de quem as escuta. Jorge Palma pertenceu a estes últimos.
Cantou a estrada, a fragilidade, o amor, a noite, o desencanto, a liberdade, os excessos e essa estranha condição de continuarmos a caminhar mesmo quando não sabemos exactamente para onde vamos e talvez por isso a sua partida tão próxima do Equinócio adquira, inevitavelmente, uma dimensão simbólica. Como foi observado ontem pelo Rodrigo Guedes de Carvalho no jornal da SIC, o Jorge partiu justamente quando terminava o verão… e o outono começou.
A natureza por vezes parece que conhece os nossos nomes ou marca as nossas despedidas, mas talvez sejamos nós que encontramos nos seus ciclos uma linguagem para compreender aquilo que dificilmente conseguimos explicar. A folha cai, o fruto desprende-se, o dia encurta, uma voz cala-se e, contudo, alguma coisa permanece… as canções continuam a ser cantadas.
Separar o subtil do denso
É aqui que as palavras de António Telmo parecem encontrar o espírito deste equinócio:
“A terra em que vivemos é apenas um laboratório; no athanor da humanidade separa-se o subtil do denso.”
A imagem do athanor, o forno dos antigos alquimistas, é particularmente poderosa. No fogo lento da existência, alguma coisa é transformada.
Telmo perguntava para onde iria aquilo que aparentemente se perde e imaginava essa passagem como transformação em energia espiritual: aquilo que de verdadeiro, belo e bom foi pensado, criado ou imaginado constituiria o subtil que se separa do denso. Talvez seja também essa uma maneira de olhar para o outono, não apenas como decadência, mas como destilação.
A árvore perde a folha, mas conserva a vida, o músico parte, mas permanece a música.
Aquilo que verdadeiramente fecundou o mundo não desaparece necessariamente com a matéria que lhe deu forma, transforma-se…
A sabedoria de deixar cair
A nossa sociedade ensina-nos sobretudo a acumular. Queremos mais experiências, mais coisas, mais informação, mais produção.
A Natureza, no entanto, passa metade do ano a ensinar exactamente o contrário. Depois da exuberância da primavera e da expansão do cerão chega inevitavelmente o momento de reduzir, de escolher e de deixar cair.
O Outono recorda-nos que desapegar não é perder. Por vezes, é criar espaço para aquilo que ainda não nasceu. Tal como uma árvore não conseguiria receber as folhas da próxima Primavera se permanecesse agarrada às anteriores, também nós precisamos, de tempos a tempos, de reconhecer aquilo que já terminou. Há relações, hábitos, ideias, medos e versões de nós próprios que talvez já tenham dado todos os frutos que tinham para dar. Agradecer-lhes pode ser mais sábio do que tentar prolongá-los.
O convite do Equinócio
Alban Elfed não precisa de ser entendido como uma crença e pode simplesmente ser recebido como um momento de consciência. Um instante no calendário para observar a Natureza e perguntar: O que colhi neste último ciclo? Pelo que estou grato? O que preciso de conservar para atravessar o meu Inverno? E o que chegou finalmente o momento de deixar cair?
Hoje a Roda volta a girar. A luz começa lentamente a recolher-se e os frutos dão lugar às sementes, as folhas regressam à terra e nós entramos novamente no tempo do interior.
Talvez a melhor forma de celebrar o Equinócio seja simplesmente essa: agradecer o que foi, cuidar do que permanece e confiar naquilo que ainda não conseguimos ver, porque debaixo da terra aparentemente adormecida já repousa a possibilidade de uma nova primavera e talvez seja essa a grande sabedoria do Outono: nada na natureza nos ensina que permanecer significa ficar igual. Por vezes, permanecer significa transformar-se.
