Os gregos não dividiam a humanidade apenas entre homens e deuses. Existia uma terceira categoria. Os heróis.
À primeira vista parece apenas uma classificação mitológica, mas talvez seja uma das descrições mais profundas da evolução da consciência humana.
Porque o mortal, o herói e o deus não representam apenas seres diferentes. Representam formas diferentes de habitar a vida.
O mortal vive, o herói desperta e o sábio serve.
Talvez toda a evolução humana possa ser compreendida através desta sequência.
O mortal
O mortal não é simplesmente aquele que um dia morre, todos morreremos. O mortal é aquele que vive sem nunca despertar para si próprio.
Acredita que é apenas o seu nome, a sua profissão, a sua história, as suas opiniões, os seus medos e as suas circunstâncias.
Confunde condicionamento com identidade, reage mais do que escolhe, sobrevive mais do que vive e a consciência permanece voltada para si própria.
Procura segurança, reconhecimento, controlo, acumulação. Ainda não descobriu outra forma de existir e é uma consciência necessária. Todos começamos aí.
O nascimento do herói
Mas chega um momento em que algo rompe a rotina. Uma perda, uma doença, uma crise, um encontro, uma pergunta.
Aquilo que parecia sólido deixa de o ser e é nesse instante que nasce o herói.
Na mitologia grega, o herói era filho de um deus e de um mortal. A imagem é extraordinária.
Continua a possuir limites humanos, mas começa a sentir que existe dentro de si algo que procura uma vida maior.
O herói deixa de perguntar: “O que posso retirar da vida?” e começa lentamente a perguntar: “O que espera a vida de mim?”
É esta mudança que inicia toda a verdadeira transformação.
Porque o herói nasce de Eros
Sócrates dizia que o herói é filho de Eros. Hoje pensamos imediatamente no amor romântico mas Eros era muito mais.
Era a força que une aquilo que está separado, o impulso que leva a consciência a procurar o Belo, o Bem e a Verdade.
Uma antiga leitura simbólica da palavra amor interpreta-a como a-mors. Ausência da morte.
Mesmo não sendo essa a sua etimologia linguística, o símbolo permanece poderoso, porque tudo aquilo que nasce do amor continua vivo para além da existência biológica. O verdadeiro herói não procura viver para sempre mas sim criar algo que continue a dar vida quando ele já não estiver. É aqui que nasce o legado.
O herói não é o destino
Mas existe um risco: pensarmos que a viagem termina aqui… não termina. O herói ainda procura realizar-se, ainda procura descobrir quem é, ainda percorre a sua jornada. As grandes tradições iniciáticas sempre disseram que existe um passo seguinte.
Quando deixamos de procurar apenas a nossa transformação e começamos a colocar essa transformação ao serviço do mundo. É aqui que nasce outro arquétipo: o do Templário.
O espírito templário
Durante muito tempo imaginámos o templário como um guerreiro.
Com uma espada, uma armadura, uma fortaleza… mas essas eram apenas as formas exteriores da sua época.
O verdadeiro espírito templário nunca foi militar, foi iniciático. O seu combate sempre aconteceu em dois níveis: protegia caminhos exteriores, mas procurava, acima de tudo, construir um caminho interior.
Talvez por isso o templário do século XXI já não precise de espada. O maior campo de batalha mudou. Hoje luta-se contra a manipulação, contra a indiferença, contra o medo, contra o ego, contra tudo aquilo que fragmenta a consciência humana.
O novo templário estuda, escuta, constrói, protege, ensina, serve… não porque tenha feito votos perante uma ordem, mas porque compreendeu que toda a consciência desperta gera responsabilidade. Quanto maior a consciência, maior o serviço.
Este poderia ser um compromisso templário feito em silêncio, diante da própria consciência:
“Comprometo-me a procurar a verdade, mesmo quando ela contraria as minhas certezas.
Comprometo-me a estudar sem orgulho e a ensinar sem vaidade.
Comprometo-me a usar a força apenas para proteger, nunca para dominar.
Comprometo-me a construir mais do que destruo.
Comprometo-me a deixar cada pessoa, cada lugar e cada geração um pouco melhores do que os encontrei.
Comprometo-me a recordar que nenhuma espada é mais poderosa do que uma consciência desperta.
E que o verdadeiro Templo não é feito de pedra.
É construído, todos os dias, dentro de cada ser humano.”
Talvez seja esse o espírito templário do nosso tempo… não o guerreiro que conquista o mundo, mas o ser humano que conquista a si próprio para poder servir o mundo.
O verdadeiro templo
Talvez também tenhamos compreendido mal o significado do templo. Pensamos imediatamente em edifícios, em muralhas, em monumentos, mas talvez os verdadeiros templos nunca tenham sido feitos de pedra. Sempre foram feitos de pessoas.
Cada consciência íntegra torna-se um lugar onde a verdade pode habitar.
Cada família que educa com amor constrói um templo.
Cada escola que desperta pensamento crítico constrói um templo.
Cada empresa que coloca a dignidade acima da exploração constrói um templo.
Cada comunidade que escolhe cooperar em vez de dividir constrói um templo.
Os templos deixam de ser lugares e passam a ser estados de consciência.
A consequência inevitável
Quando a consciência amadurece acontece algo curioso: a competição deixa de ser suficiente, o reconhecimento deixa de ser suficiente, o sucesso deixa de ser suficiente e surge naturalmente outra forma de olhar para os outros. Não como adversários, nem como concorrentes, mas como companheiros de caminho. É aqui que nasce a fraternidade.
Não como sendo uma regra moral, mas como uma consequência inevitável da evolução da consciência.
A fraternidade não pede que pensemos todos da mesma maneira, pede apenas que reconheçamos a mesma dignidade em todos os seres humanos.
O outro deixa de ser um obstáculo e passa a ser parte da mesma viagem.
Talvez seja esta a verdadeira evolução
Ao longo da História mudaram os símbolos, mudaram os impérios, mudaram as religiões, mudaram as tecnologias, mas talvez a verdadeira evolução sempre tenha sido esta: passar da sobrevivência para a consciência, da consciência para o serviço e do serviço para a fraternidade.
Talvez seja isso que todas as grandes tradições procuraram ensinar. O herói vence o próprio medo, o templário coloca essa vitória ao serviço da humanidade e a fraternidade torna-se o fruto natural dessa escolha.
Talvez o futuro não dependa de surgirem mais heróis extraordinários. Talvez dependa de existirem cada vez mais pessoas comuns dispostas a viver com consciência, servir com humildade e reconhecer no outro um irmão de caminho. Porque uma civilização não é construída pelas muralhas que ergue, é construída pela qualidade da consciência dos seres humanos que a habitam e talvez seja esse o verdadeiro Templo que a nossa época é chamada a construir.