Estava há dias a ler um livro quando encontrei uma passagem sobre uma ideia antiga de Platão: ferro, bronze, prata e ouro.

Quatro metais para falar de diferentes tipos de homens e das funções que cada um desempenharia na sociedade. Continuei a ler, mas a ideia ficou comigo. Tenho esta tendência de pegar em certas coisas e levá-las para outro lado. Às vezes dá bons resultados, outras vezes dá-me mais perguntas do que aquelas que tinha antes, o que também já aprendi a aceitar.

Comecei a pensar: e se estes quatro homens forem, afinal, quatro partes de nós? E se, em vez de procurarmos identificar quem é de ferro, quem é de bronze, quem é de prata ou quem é de ouro, olharmos para estes metais como diferentes formas de consciência?

A partir daí, a leitura ganhou para mim outro sentido, porque consigo reconhecer os quatro na minha própria vida e suspeito que não seja o único.

O ferro que existe em nós

Há períodos da vida em que somos muito ferro. Precisamos de trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas, criar segurança, cuidar do corpo, proteger a família, construir alguma coisa que nos dê estabilidade. É a vida concreta.

Aquela parte menos romântica da existência que continua a precisar de atenção enquanto estamos ocupados a tentar perceber o sentido do Universo.

O ferro está ligado à Terra e gosto dessa imagem. Há qualquer coisa nele que nos puxa para baixo, para o chão, para aquilo que é real e precisa de ser resolvido. Também reconheço fases da minha vida em que grande parte da energia estava aqui. Era preciso fazer, resolver, trabalhar, criar condições. Garantir que amanhã continuava a haver chão.

Quando estamos neste lugar, a vida organiza-se muito à volta do indivíduo e das suas necessidades. O que preciso? Como me protejo? Como consigo estabilidade? Como sobrevivo?

Há uma inteligência interessante neste estado. O corpo conhece-a muito bem. É provavelmente uma das consciências mais antigas que transportamos. Antes de pensarmos no propósito da vida, já o ser humano procurava comida, abrigo e segurança e continuamos a fazê-lo.

Só que, a determinada altura, pode surgir uma sensação estranha. Temos algumas das coisas que procurávamos e continuamos a sentir que falta qualquer coisa. Foi aí que comecei a ver o bronze.

Quando aparece o outro

O bronze trouxe-me uma imagem diferente. Já existe transformação da matéria. Existe circulação e existe troca. Eu tenho alguma coisa que tu precisas e tu tens alguma coisa que eu preciso. Encontramo-nos.

É aqui que o “eu” começa verdadeiramente a descobrir o “nós”. Começamos a perceber que a vida acontece em relação. Trabalhamos com pessoas, criamos projectos com pessoas, amamos pessoas, compramos, vendemos, ensinamos, aprendemos, ajudamos, pedimos ajuda. Até aquilo que julgamos ter feito sozinhos tem quase sempre uma quantidade considerável de gente invisível lá dentro.

Um livro que escrevemos contém todos os livros que lemos. Um projecto contém pessoas que nos ensinaram. Uma ideia contém conversas que já nem sabemos onde aconteceram. Começamos a perceber que estamos permanentemente a trocar qualquer coisa com o mundo. Tempo, conhecimento, dinheiro, afecto, presença, reconhecimento, experiência.

O bronze parece-me representar precisamente esta descoberta da reciprocidade e também aqui me reconheço.

Durante muitos anos da minha vida profissional, vivi bastante neste território. O valor era criado, trocado, medido, negociado. Havia objectivos, resultados, relações e uma lógica bastante clara entre aquilo que dávamos e aquilo que recebíamos.

Essa aprendizagem continua presente em mim e acredito que o bronze nos ensine uma coisa essencial: ninguém constrói uma vida completamente sozinho. Só que chega um momento em que a própria troca começa a parecer insuficiente, porque há coisas que fazemos sem saber exatamente o que vamos receber e há coisas pelas quais estamos dispostos a dar muito simplesmente porque sentimos que importam. Foi aqui que encontrei a prata.

Quando alguma coisa se torna maior do que nós

A prata mexeu comigo de outra maneira. Na imagem tradicional, está associada ao guerreiro. Durante muito tempo, quando ouvia a palavra guerreiro, pensava imediatamente em combate, força, conquista.

Hoje vejo-a de forma diferente. Um guerreiro é também alguém que descobriu aquilo que está disposto a defender e isso muda tudo, porque, a determinada altura da vida, podemos começar a perguntar: o que é realmente importante para mim? Que valores quero defender? Onde vale a pena colocar o meu tempo? O que quero deixar depois de passar por aqui?

A vida começa a ganhar uma dimensão que ultrapassa o interesse imediato. Pode ser através dos filhos, de uma obra, de uma causa, de uma comunidade, de um livro, de uma forma de ensinar, de uma maneira de cuidar dos outros. Cada pessoa encontrará a sua.

O importante, para mim, está naquele momento em que percebemos que a nossa vida pode servir alguma coisa maior do que o nosso conforto. Talvez seja por isso que a virtude associada à prata é a coragem. É preciso coragem para viver de acordo com valores. Enquanto os valores estão escritos num papel, são relativamente fáceis. A coisa complica-se quando começam a ter consequências. Quando manter uma palavra custa, quando escolher um caminho significa abandonar outro, quando defender aquilo em que acreditamos nos retira conforto ou quando aquilo que sentimos ser certo deixa de coincidir com aquilo que seria mais fácil. Conheço este lugar. Provavelmente todos conhecemos e talvez seja aqui que a pergunta mude novamente.

No ferro perguntávamos: O que preciso?
No bronze: O que podemos trocar?
Na prata começa a surgir: ao serviço de quê quero colocar a minha vida?
Esta pergunta pode ficar connosco durante muitos anos.

E um dia começamos a procurar o ouro

O ouro sempre teve uma relação especial com o sagrado. Talvez pela sua raridade, pelo brilho, pela capacidade de resistir ao tempo. Os alquimistas fizeram dele a grande imagem da transformação e foi precisamente aqui que comecei a olhar para o quarto homem de outra maneira.

O homem de ouro, nesta leitura que fui construindo, é aquele que começa a juntar dois mundos que durante muito tempo pareciam separados: A Terra e o Céu, a matéria e o espírito, a vida concreta e a vida interior.

Durante muitos anos também vivi estas dimensões como se estivessem arrumadas em gavetas diferentes. Havia o trabalho, a família, as responsabilidades e depois havia a espiritualidade, a meditação, a procura interior, os símbolos, as perguntas.

Com o tempo, estas fronteiras foram-se tornando menos claras. Hoje interessa-me muito mais perceber o que acontece quando essas dimensões se encontram e talvez seja precisamente aí que começa o ouro.

Quando compreendemos que a experiência espiritual também acontece enquanto trabalhamos, criamos, educamos um filho, atravessamos uma crise, terminamos uma relação, começamos um projecto ou tentamos perceber o que fazer numa terça-feira particularmente complicada.

A espiritualidade ganha outra textura quando chega à vida e a vida ganha outra profundidade quando começa a ser vivida como experiência de consciência. Começo então a perceber a imagem antiga do homem de ouro como aquele que faz a ponte entre o visível e o invisível.

Entre Céu e Terra. Gosto particularmente desta imagem porque uma ponte precisa das duas margens e acredito que nós também.

Os pés na Terra e a cabeça no Céu

Há uma frase que ouvimos muitas vezes: somos seres espirituais a viver uma experiência humana. Durante muito tempo achei-a bonita. Hoje começo a perceber melhor a exigência que ela contém, porque viver uma experiência humana significa entrar verdadeiramente nela. Ter corpo, ter limites, sentir medo, desejar, perder, construir, falhar, amar, envelhecer.

Ter de decidir mesmo quando nenhuma das opções parece perfeita. Talvez a experiência terrena seja precisamente o lugar onde a consciência se encontra com a matéria e, vista assim, a nossa vida inteira pode transformar-se numa espécie de laboratório.

O ferro ensina-nos a encarnar, o bronze ensina-nos a relacionar, a prata ensina-nos a servir e o ouro ensina-nos a integrar. Foi aqui que esta antiga história dos metais começou realmente a fazer sentido para mim.

Porque continuo a precisar de ferro

Enquanto pensava nestes quatro estados, percebi outra coisa: seria muito tentador transformar isto numa escada. Primeiro somos ferro, depois evoluímos para bronze, mais tarde chegamos à prata e, depois de muitas meditações, livros e provavelmente algumas dificuldades existenciais, finalmente recebemos o cartão dourado.

A vida que conheço parece funcionar de forma bastante menos organizada. Há dias em que podemos estar profundamente ligados a um propósito e, cinco minutos depois, entrar numa discussão absurda porque alguém ocupou o nosso lugar de estacionamento.

Continuamos humanos e acho que é mesmo essa a graça. Por isso, comecei a olhar para os quatro metais como partes que continuam sempre connosco. Eu preciso do meu ferro, preciso de estrutura, corpo, dinheiro, limites e capacidade de agir. Preciso também do bronze, preciso de saber relacionar-me, trocar, colaborar, receber e dar. Preciso da prata, de saber aquilo que merece a minha coragem e aquilo que quero ajudar a preservar ou construir e preciso do ouro, para me recordar que existe uma dimensão da experiência que ultrapassa aquilo que consigo tocar.

Talvez a maturidade tenha mais a ver com conseguir colocar cada um destes metais no seu lugar.

O ouro talvez seja integração

Esta foi provavelmente a ideia que mais ficou comigo. O ouro pode ser entendido como integração. Chegar ao ouro seria conseguir levar consciência à matéria, às relações e ao propósito.

Continuar a trabalhar, mas perceber para quê, continuar a ganhar dinheiro, mas saber o lugar que ele ocupa, continuar a relacionar-nos, mas perceber aquilo que estamos a criar através das relações, continuar a defender valores, mas recordar que até os valores podem tornar-se prisões quando deixamos de os questionar e continuar a procurar o espírito sem perder o contacto com a Terra. Não será isso fazer a ponte entre Céu e Terra? Receber alguma coisa do alto e dar-lhe forma cá em baixo. Uma ideia torna-se livro, uma intuição torna-se escolha, um valor torna-se comportamento, uma visão torna-se obra, uma experiência torna-se sabedoria. O invisível ganha forma através de nós e a matéria, por sua vez, devolve-nos experiência. Talvez seja esta troca que nos transforma.

E comecei a suspeitar que falta qualquer coisa

Depois de andar algum tempo com esta ideia dos quatro metais, apareceu-me outra pergunta: se existem quatro estados dentro de nós, quem é aquele que consegue observá-los?

Quem percebe: “Agora estou a viver a partir do medo e da sobrevivência.” “Agora estou a negociar.” “Agora estou a defender alguma coisa importante.” “Agora sinto-me profundamente ligado a algo maior.”

Existe em nós qualquer coisa capaz de reconhecer todos estes movimentos e talvez aí comece uma quinta possibilidade. Tenho pensado bastante sobre isto nos últimos tempos. Talvez depois da Terra, da Água, do Ar e do Fogo exista um centro, um lugar interior a partir do qual os quatro podem ser vividos conscientemente.

Já escrevi sobre esta ideia dos quatro caminhos da Humanidade e sobre a possibilidade de existir um quinto caminho. Quanto mais cruzo estas tradições e símbolos, mais interessante se torna esta imagem. Talvez o quinto caminho tenha menos a ver com acrescentar outra coisa e mais com integrar aquilo que já existe. Um centro. O lugar onde Terra, Água, Ar e Fogo deixam de competir entre si. Onde matéria, relação, propósito e espírito começam a fazer parte da mesma vida e talvez seja precisamente aí que esta velha ideia de Platão ganha uma nova possibilidade. Podemos lê-la como uma proposta sobre a organização de uma sociedade antiga ou podemos colocá-la diante de nós como um espelho… eu tenho feito isso nos últimos dias e descobri que a pergunta que mais me interessa já não é: Sou ferro, bronze, prata ou ouro? Tenho sido todos. Provavelmente ainda hoje consigo passar pelos quatro antes do jantar.

A pergunta que ficou comigo é outra: A partir de que lugar estou a viver neste momento? E, talvez ainda mais importante: Aquilo que estou a viver está apenas a acontecer comigo ou estou a conseguir transformá-lo em consciência?

Talvez seja essa a alquimia que realmente importa… 

 

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