Há algumas noites que tenho um sonho que se repete.
Aparece uma serpente. Não me ameaça, não tenta atacar-me, não sinto propriamente medo dela. Olha para mim e aproxima-se devagar. Depois acontece uma coisa estranha: encosta a testa na minha… e fica ali.

A primeira vez achei curioso. Quando voltou a acontecer, comecei a prestar mais atenção. Acredito que todos os sonhos têm um significado mas vou sempre com cautela. Até porque, quando entramos por aí, rapidamente descobrimos que uma serpente pode significar praticamente tudo, dependendo do livro que abrimos. Sinto que o mais interessante num sonho seja precisamente aquilo que ele provoca em nós antes de tentar compreender o que deve significar.

Neste caso, o que ficou comigo foi aquele encontro. Ela olha para mim e eu olho para ela e há contacto.

Nos últimos dias comecei a pensar na serpente como uma imagem do Tempo. Talvez porque estou também num período da minha vida em que tenho pensado bastante sobre ciclos, finais e começos. Sobre aquelas alturas em que sentimos que alguma coisa terminou, mesmo quando exteriormente ainda parece estar tudo no mesmo sítio e existe uma sensação de que algo novo vai iniciar e não sei ainda o quê.

Há momentos assim. Não aconteceu necessariamente uma grande coisa, nem ninguém tocou uma campainha a anunciar o fim de um ciclo. Simplesmente começamos a perceber que uma determinada forma já não serve.

Pode ser uma relação, um trabalho, um projecto, uma maneira de estar ou até uma ideia que tivemos sobre nós durante muitos anos e aqui começa normalmente a parte divertida: percebemos que terminou, mas tentamos continuar na mesma. Somos bastante bons nisso…

A natureza, aparentemente, tem menos dificuldade. Uma semente germina, cresce, dá flor, a flor dá fruto e o fruto amadurece. A determinada altura, cai.

Não existe propriamente uma crise existencial da maçã agarrada ao ramo a perguntar: “Mas será que estou mesmo preparada?”

Nós fazemos isso. Talvez por sabermos que cada mudança verdadeira traz consigo uma pequena morte e a serpente conhece muito bem esse movimento porque, para continuar a crescer, tem de abandonar a pele que a trouxe até ali.

A pele antiga não estava errada. Foi necessária, protegeu-a, acompanhou-a. Só deixou de ter espaço para aquilo que vem a seguir e isto muda um pouco a forma como podemos olhar para determinados finais. Nem tudo aquilo que termina correu mal. Às vezes, simplesmente chou o seu tempo.

Uma velha pergunta sobre o Tempo

Foi a partir daqui que me lembrei de algumas leituras antigas. Mario Roso de Luna escreveu muito sobre os Mistérios e sobre a forma como os antigos escondiam, dentro dos mitos, ideias profundas acerca da experiência humana.

Quando hoje ouvimos falar de iniciação, é fácil imaginarmos cerimónias secretas, templos, símbolos e personagens de túnica a fazer coisas bastante misteriosas à luz de tochas. Pode ter havido alguma coisa disso mas aquilo que sempre me interessou nos Mistérios é outra coisa. A iniciação como representação daquilo que acontece connosco quando uma identidade termina e outra começa a nascer.

Nos chamados Mistérios Maiores, a morte e o renascimento aparecem constantemente. Só que entre morrer e renascer existe uma parte de que falamos menos: o intervalo. Já não sou aquilo que era, ainda não sei aquilo que vou ser e agora?

Agora ficamos ali um bocadinho. Entre mundos. Esta é uma das experiências mais desconfortáveis para nós porque gostamos de saber. Gostamos de perceber o que está a acontecer, qual é o próximo passo e, já agora, se alguém nos puder enviar o programa completo com horários e localização, agradecemos.

Mas a vida raramente funciona assim. Há períodos em que simplesmente não sabemos. A pele antiga já está apertada, mas a nova ainda não existe e talvez seja precisamente aí que alguma coisa importante acontece.

Quem está a viajar?

Jorge Ángel Livraga falava do ser humano como viajante do Tempo. Sempre gostei desta imagem mas há uma pergunta que me acompanha há muito tempo e que agora voltou com mais força: somos nós que viajamos através do Tempo ou é o Tempo que viaja através de nós?

Parece apenas uma brincadeira com palavras, mas experimenta pensar nisso durante alguns minutos. Tenho 51 anos, olho para fotografias minhas de outras alturas da vida e encontro várias versões de mim. O miúdo, o adolescente, o homem de vinte anos, o de trinta, o de quarenta, o de cinquenta. O corpo mudou, as ideias mudaram, os sonhos mudaram. Algumas pessoas chegaram, outras partiram. Coisas que me pareciam absolutamente essenciais deixaram de ter importância e outras, que provavelmente ignorei durante anos, tornaram-se fundamentais.

No entanto, existe uma sensação estranha de continuidade. Continuo a dizer “eu”. Então quem é esse “eu”? É aquele que atravessou todos estes anos? Ou existe alguma coisa em nós relativamente imóvel enquanto o Tempo passa através dela? Não tenho uma resposta, mas gosto muito mais da pergunta.

A serpente que come a própria cauda

Talvez por isso a serpente tenha sido tantas vezes associada ao Tempo. Há uma imagem antiquíssima que sempre me fascinou: o ouroboros. A serpente que morde a própria cauda. Não sabemos exactamente onde começa nem onde termina, é um círculo. Nascimento, crescimento, morte, nascimento outra vez. Só que talvez nunca regressemos exactamente ao mesmo lugar.

Também fazemos isto na vida. Há situações que parecem repetir-se. Relações diferentes trazem-nos perguntas semelhantes. Mudamos de trabalho e encontramos o mesmo conflito. Juramos que desta vez vai ser diferente e, passado algum tempo, lá estamos nós novamente diante de uma versão bastante conhecida do problema.

Talvez os ciclos não sejam círculos perfeitos. Talvez sejam espirais. Voltamos a lugares conhecidos, mas já não somos exactamente a mesma pessoa e isso faz toda a diferença.

E depois apareceu-me outra imagem: o vento

Enquanto pensava nisto, surgiu-me também o símbolo do vento. O vento é curioso porque nunca o vemos directamente. Vemos as folhas mexer, sentimos a pele arrepiar, ouvimos uma janela bater e lembramo-nos de que a devíamos ter arranjado há três meses, mas o vento propriamente dito não se vê. Vemos apenas os seus efeitos.

Com o Tempo acontece qualquer coisa parecida. Nunca vemos o Tempo. Vemos um rosto envelhecer, uma árvore crescer, uma criança tornar-se adulta, uma casa ganhar marcas, uma relação transformar-se.

O Tempo torna-se visível através daquilo que toca e talvez seja aqui que o vento e a serpente se encontrem. A serpente fala-me de ciclos e o vento fala-me de movimento. Um transforma a forma, o outro obriga-a a mover-se.

Há ventos que chegam suavemente e quase pedem licença, outros entram pela nossa vida dentro e mudam os móveis todos de sítio sem perguntar se dava jeito. Mas ambos dizem a mesma coisa: alguma coisa está a mudar. A questão é perceber se continuamos agarrados ao que conhecemos ou se conseguimos escutar para onde sopra o vento.

Talvez o Tempo não seja uma coisa

Foi então que comecei a fazer uma pergunta um pouco diferente. E se o Tempo for também um arquétipo? Quando pensamos no Tempo, pensamos normalmente em horas, dias e anos, mas esse é o tempo do relógio. Existe outro. O tempo das coisas.

Há relações que duram vinte anos e parecem ter passado num instante. Há cinco minutos numa sala de espera que conseguem durar aproximadamente uma pequena eternidade. Há coisas que acontecem cedo demais, outras tarde demais e há momentos em que alguma coisa simplesmente amadureceu.

Acredito que os antigos sabiam distinguir melhor estes tempos. O tempo que passa e o tempo que chega. O tempo medido e o momento certo.

O Tempo, visto desta forma, deixa de ser apenas uma linha que nos leva do nascimento até à morte e passa a ser aquilo que amadurece as formas. Aquilo que lhes permite nascer, crescer, cumprir-se e desaparecer e talvez seja por isso que temos uma relação tão difícil com ele.

Porque queremos que certas coisas permaneçam, seja uma pessoa, um corpo, uma relação, uma casa, uma ideia de quem somos. Só que o Tempo parece ter outro compromisso com o movimento.

E volto ao meu sonho

Depois destas voltas todas, continuo sem saber o que significa a serpente e está tudo bem. Talvez nem queira descobrir já. O que sei é que ela continua a aparecer. Olha para mim, aproxima-se e encosta a testa na minha. Não me morde. Não me ameaça. Não me mostra nenhum caminho. Fica ali e quanto mais penso nesse gesto, mais estranho ele se torna porque não parece um encontro com alguma coisa que vem de fora. Parece um reconhecimento. Como se, por alguns instantes, aquilo que observa e aquilo que é observado deixassem de estar completamente separados.

Talvez seja apenas um sonho mas trouxe-me uma pergunta que acordou comigo. Tenho pensado muito sobre aquilo que termina, aquilo que começa e, principalmente, sobre esse espaço desconfortável entre os dois. O lugar onde já não conseguimos ser quem éramos, mas ainda não sabemos muito bem quem estamos a tornar-nos. Não será esse o verdadeiro território dos Mistérios. Não um lugar escondido algures num templo antigo… mas este lugar. Aquele que todos atravessamos várias vezes durante a vida e talvez a iniciação comece precisamente quando deixamos de fugir desse intervalo. Quando conseguimos permanecer ali durante algum tempo. Sem resposta, sem nome, sem saber ainda o que vem depois. Apenas atentos. Estas noites, curiosamente, é uma serpente que me faz companhia nesse lugar e a pergunta que ela me deixa é muito simples: Que pele estou ainda a tentar levar comigo para um tempo ao qual ela já não pertence?

Ou talvez exista uma pergunta ainda mais estranha. Enquanto penso que estou a atravessar o Tempo, o que estará o Tempo a transformar em mim?

 

2 Responses

  1. Eu sei há muito que o nosso caminho não se cruzou à toa, como de resto nada assim acontece, e provavelmente não terá sido a primeira vez…ler te neste artigo trouxe me mais uma vez aquela estranha e conhecida sensação de que estás a escrever para mim…
    ler te, ouvir te é sempre um misto de prazer e desassossego…uma inquietude que me embala que ressoa na profundidade do meu sentir…

    Grata por Seres

    1. Sandra, alguns caminhos reconhecem-se antes mesmo de sabermos explicar porquê. Há encontros que vão deixando ecos ao longo do tempo, como se a conversa tivesse começado muito antes de nós.
      Fico muito feliz por saber que aquilo que escrevo te chega assim. Sobretudo com esse misto de prazer e desassossego, porque às vezes são precisamente as palavras que nos inquietam que encontram qualquer coisa dentro de nós que já estava à espera de ser tocada.
      Obrigado por continuares desse lado, a ler, a ouvir e, acima de tudo, a sentir.
      Grato por Seres também.

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