Quando pensamos em Gualdim Pais, pensamos habitualmente num cavaleiro, pensamos no fundador de Tomar, no Mestre da Ordem do Templo, no guerreiro que protegeu a fronteira de um reino ainda jovem e incerto.
Mas talvez a verdadeira importância de Gualdim Pais não esteja apenas naquilo que ele fez… talvez esteja naquilo que continua a representar, porque existem homens cuja vida termina quando o seu corpo morre e existem homens cuja missão continua viva muito depois da sua partida.
Gualdim Pais pertence a essa segunda categoria.
Muito mais do que um guerreiro
A História recorda-o como combatente, estratega e construtor. Combateu ao lado de D. Afonso Henriques, participou na conquista de Lisboa, viajou para a Terra Santa, assumiu a liderança da Ordem do Templo em Portugal, fundou Tomar, ergueu castelos e protegeu fronteiras.
Mas limitar Gualdim Pais a um papel militar é não compreender a natureza da própria Ordem que servia.
Os Templários eram simultaneamente guerreiros e guardiões. Guardavam caminhos, conhecimentos, símbolos e territórios.
Compreendiam que uma muralha não serve apenas para defender uma cidade, serve para proteger algo que merece sobreviver e talvez seja precisamente aí que reside a grande missão de Gualdim Pais: não é proteger terras, mas proteger uma possibilidade.
O reconhecimento de um lugar
Há quem conquiste um território e há quem reconheça um território.
Talvez os lugares escolham as pessoas tanto quanto as pessoas escolhem os lugares e talvez existam territórios que aguardam quem seja capaz de reconhecer a sua função e talvez por isso Tomar seja um desses lugares.
Quando Gualdim escolhe Tomar, dificilmente está apenas a procurar uma posição estratégica. O local já tinha uma memória muito anterior aos Templários. Ali convergiam águas, caminhos, povos e histórias. Ali existia algo que sucessivas gerações pareciam reconhecer.
Como se aquele território estivesse destinado a tornar-se um ponto de encontro entre diferentes dimensões da experiência humana. Entre o visível e o invisível, entre a matéria e o espírito, entre a ação e a contemplação.
A construção da Charola não foi apenas arquitetura, foi uma linguagem simbólica e geometria transformada em pedra. Foi a tentativa de reproduzir um centro e todo o centro tem uma função: organizar, ligar e orientar.
O guardião do limiar
Em várias tradições iniciáticas existe uma figura recorrente: o guardião do portal.
Não é aquele que impede a passagem.
É aquele que garante que a passagem continua sagrada e que protege a integridade do centro.
Que mantém viva a memória do propósito e que recorda aos viajantes que toda a travessia exige transformação.
Gualdim Pais encarna esse arquétipo porque ajudou a criar um espaço onde diferentes conhecimentos, culturas e tradições puderam encontrar-se e por isso a sua missão não terminou no século XII. Continua sempre que alguém procura transformar o “conflito” numa construção de algo diferente. Continua sempre que alguém escolhe servir algo maior do que o próprio ego e sempre que alguém protege um propósito em vez de proteger apenas interesses.
A missão de Tomar
Ao longo dos séculos, Tomar tornou-se muito mais do que uma cidade, transformou-se num símbolo, um símbolo de ligação… e não é por acaso que tantas pessoas chegam a Tomar e sentem algo difícil de explicar.
Não é apenas beleza nem apenas história. Existe uma sensação de presença… como se aquele território ainda estivesse a cumprir uma função.
Talvez porque os territórios também guardem memória e a memória de Tomar é a memória de uma ponte. Uma ponte entre Oriente e Ocidente, entre tradição e inovação, entre espiritualidade e pragmatismo e entre passado e futuro.
Portugal e a sua vocação
Quando observamos a história portuguesa percebemos um padrão semelhante. Portugal nunca foi verdadeiramente um império de dimensão mas sim um império de ligação.
Portugal ligou continentes, ligou culturas, ligou povos e formas diferentes de ver o mundo.
Talvez por isso Gualdim Pais e Tomar tenham uma importância tão particular dentro da narrativa portuguesa, porque representam, em escala reduzida, aquilo que Portugal parece representar em escala maior. A capacidade de unir sem apagar diferenças, a capacidade de integrar sem destruir identidades e a capacidade de criar encontro.
Num mundo cada vez mais polarizado, fragmentado e dividido, esta missão torna-se novamente relevante.
O espírito que permanece
O verdadeiro legado de Gualdim Pais não está nas pedras do castelo, nem nas muralhas, nem sequer na própria cidade.
Está na consciência que continua a despertar, está na lembrança de que o poder é serviço e de que a força existe para proteger. Está na consciência de que os territórios possuem uma alma e de que alguns homens surgem na História para recordar essa alma aos restantes.
Talvez seja por isso que a sua presença continua tão viva. Porque Gualdim Pais não pertence ao passado, ele pertence a todos aqueles que continuam a acreditar que existem causas maiores do que o interesse individual.
Pertence aqueles que acreditam que existem lugares que devem ser preservados e que existem missões que atravessam séculos.
Enquanto houver quem procure construir pontes em vez de muralhas, enquanto houver quem escolha servir em vez de dominar e quem proteja aquilo que une em vez daquilo que separa, o espírito de Gualdim Pais continuará vivo.
Não apenas em Tomar, mas em Portugal e, acredito eu, talvez, no próprio mundo.
Talvez seja por isso que Tomar continua a chamar tantas pessoas e não tem “apenas” a ver com memórias do passado.
Talvez seja para nos lembrar de uma missão que ainda não terminou e que não pertence a uma época mas sim a uma terra, e algumas terras continuam a chamar aqueles que estão preparados para as escutar.
E tu? Já alguma vez chegaste a um lugar e sentiste que ele te reconhecia antes de tu o reconheceres? Conta-me nos comentários a tua experiência em Tomar, ou em qualquer território que continue a guardar algo dentro de ti. Estas memórias dos lugares são, no fundo, o tema do meu próximo livro “Portugal: território de ligação“. Será uma viagem por essa chamado antigo de unir aquilo que parece separado.

Só essa imagem diz, quando um Guerreiro procura o seu caminho, por vezes diz que encontrou e não é bem isso. Tomar traz-me memórias de outras vidas daquelas que quero recordar e sanar tudo o que ficou lá atrás.
Abraço
Foram os templários que ajudaram Portugal a ser um império, o seu legado não pode ser esquecido!