A Vida acontece quando o Tempo encontra o Verbo

Quando desenvolvi a Numerologia Sistémica, procurei desde o início olhar para os números para além da interpretação individual de cada um. Interessava-me perceber as relações entre eles, os movimentos que revelam e aquilo que acontece quando diferentes partes do nosso código são observadas como pertencendo ao mesmo sistema.

Foi nesse percurso que integrei o Selo de Salomão como uma das ferramentas da metodologia. No meu livro Os Números Curam, publicado pela Editora Zéfiro, explico esta abordagem e a forma como diferentes aspetos do nosso código numerológico podem ser organizados no Selo, criando uma espécie de mapa simbólico da pessoa.

Mas os símbolos têm uma característica curiosa: raramente ficam fechados na primeira interpretação que fazemos deles. À medida que trabalhamos com eles, começam a revelar outras relações e, sobretudo, outras perguntas. Foi precisamente isso que me aconteceu com o Selo de Salomão.

Para além dos dois triângulos que imediatamente reconhecemos, comecei a prestar atenção a duas direções muito simples que atravessam a figura: uma vertical e outra horizontal. A primeira estabelece simbolicamente uma ligação entre o Céu e a Terra. A segunda liga aquilo que acontece dentro de nós à forma como nos expressamos e entramos em relação com o mundo.

No lugar onde estas duas direções se encontram surge uma imagem que me parece particularmente interessante para refletirmos sobre a nossa própria vida: o cruzamento entre o Tempo e o Verbo.

A linha vertical: entre o Céu e a Terra

A linha vertical é uma das imagens simbólicas mais antigas que encontramos. A árvore mergulha as raízes na terra e abre os ramos para o céu, a montanha nasce do chão e eleva-se, as colunas ligam a base ao topo e os templos foram, durante séculos, construídos para conduzir naturalmente o olhar para cima.

Nós próprios vivemos nesta verticalidade. Temos os pés na terra e a cabeça orientada para o alto, pelo menos quando não estamos curvados a olhar para o telemóvel 😂 .

Há qualquer coisa nesta direção que nos fala de eixo, sentido e alinhamento. Diferentes tradições representaram esta ligação através da árvore, da montanha, da coluna ou da imagem do axis mundi, um eixo simbólico capaz de estabelecer uma relação entre diferentes planos da existência.

Na Numerologia Sistémica há aspetos do nosso código que podem ser colocados simbolicamente nesta direção. Falam-nos de temas que parecem atravessar a vida, de aprendizagens que regressam sob diferentes formas e de uma orientação que se vai tornando mais clara à medida que caminhamos.

É neste eixo vertical que situo aquilo a que chamo os Guardiões do Tempo Sagrado.

A palavra importante aqui é Tempo.

Há coisas que só o Tempo sabe fazer

Estamos habituados a pensar no tempo como aquilo que o relógio mede. Horas, dias, anos, prazos, aniversários e aquela estranha capacidade que cinco minutos têm de durar uma eternidade quando estamos à espera e desaparecerem instantaneamente quando carregamos em “adiar” no despertador.

Mas há outra dimensão do tempo que me interessa muito mais nesta reflexão.

Há coisas na nossa vida que precisam simplesmente de amadurecer.

Podemos compreender intelectualmente alguma coisa e ainda não estar preparados para a viver. Podemos saber que precisamos de mudar e continuar exatamente no mesmo lugar. Podemos reconhecer um padrão durante anos até chegar um dia em que, sem sabermos muito bem porquê, aquilo que antes parecia impossível se torna evidente.

O que mudou?

Talvez quase nada por fora. Mudámos nós.

Há uma diferença entre saber uma coisa e estar preparado para a viver.

É por isso que gosto da expressão Tempo Sagrado. Não porque imagine um relógio invisível no universo a marcar a hora certa para cada acontecimento, mas porque a vida tem processos que não conseguimos acelerar apenas porque estamos com pressa.

Uma semente não cresce mais depressa se gritarmos com ela. Seria prático, mas a natureza parece ter decidido ensinar-nos paciência da maneira mais demorada possível.

Há relações, ideias, lutos, decisões e partes de nós que precisam de tempo. Podemos reconhecer algo aos vinte anos e só aos cinquenta perceber verdadeiramente o que aquilo significava.

A possibilidade já existia. Nós é que ainda não tínhamos chegado até ela.

Talvez o Tempo seja precisamente isso: o espaço necessário para nos tornarmos capazes de viver aquilo que, de alguma forma, já existia em nós.

Compreender não é ainda viver

Há, no entanto, uma armadilha interessante neste caminho.

Podemos compreender muito sobre nós próprios. Podemos ler livros, fazer cursos, meditar, conhecer os nossos padrões familiares, estudar o mapa numerológico, fazer terapia e acumular uma quantidade respeitável de consciência sobre aquilo que fazemos… e continuar a fazer exatamente a mesma coisa.

Talvez agora consigamos explicar o padrão com muito mais elegância, o que já não é mau. Mas o padrão continua lá.

Todos conhecemos esta experiência. Sabemos que determinada situação nos faz mal, percebemos que precisamos de colocar um limite ou sentimos há muito tempo que queremos começar ou terminar alguma coisa. Sabemos tudo isso e, ainda assim, chega segunda-feira e continuamos iguais.

É aqui que a verticalidade encontra a horizontalidade.

Porque compreender uma direção não significa necessariamente caminhá-la.

Podemos saber onde fica o Norte e continuar sentados.

A horizontal: quando entramos no mundo

Se a verticalidade nos fala do nosso eixo, a horizontalidade fala daquilo que fazemos a partir dele. É o território da relação, da expressão, da escolha e da ação.

No eixo horizontal encontramos aquilo a que chamo os Guardiões do Verbo Criador.

Também aqui existem aspetos do nosso código numerológico que ajudam a compreender a forma como aquilo que acontece dentro de nós procura expressão. Mas, mais do que entrar nos números, interessa-me a imagem simbólica que está por detrás deles.

O Verbo.

Quando ouvimos esta palavra, pensamos naturalmente na linguagem. Mas o Verbo é mais do que falar. É colocar em movimento, é transformar aquilo que existe como possibilidade numa experiência concreta.

Podemos querer escrever um livro durante vinte anos. Enquanto pensamos nele, o livro existe como possibilidade. No dia em que escrevemos a primeira página, alguma coisa mudou.

Podemos querer mudar de trabalho durante anos. Quando fazemos a primeira chamada ou enviamos o primeiro currículo, aquilo que estava apenas dentro de nós entrou no mundo.

Podemos amar alguém profundamente, mas esse amor precisa de palavras, presença, gestos e escolhas para se tornar relação.

O Verbo é, neste sentido, aquilo que dá corpo ao invisível.

Estamos sempre a criar alguma coisa

Quando falo de Verbo Criador, não estou a pensar apenas nas grandes criações. Não precisamos de escrever um livro, pintar um quadro ou fundar uma empresa para criar.

Criamos constantemente através da forma como vivemos.

Criamos confiança quando somos coerentes, criamos distância quando nos fechamos, criamos proximidade através da presença, criamos conflitos através daquilo que repetimos, criamos possibilidades quando dizemos sim e criamos limites quando aprendemos a dizer não.

Até aquilo que adiamos participa na realidade que estamos a construir.

O Verbo é aquilo que fazemos existir através de nós.

Por isso, a horizontalidade é também o território onde descobrimos se aquilo em que acreditamos consegue sobreviver ao contacto com a vida real.

É relativamente fácil sentirmo-nos profundamente serenos quando estamos sozinhos, em silêncio, com uma música tranquila e uma vela acesa. A coisa torna-se mais interessante quando aparece alguém que conhece exatamente o botão que nos tira desse estado em três segundos.

É aí que começa a horizontalidade.

É onde encontramos o outro e onde, inevitavelmente, o outro também nos encontra.

O Céu precisa da Terra

Se regressarmos à imagem da linha vertical, encontramos o Céu em cima e a Terra em baixo.

Podemos imaginar o Céu como aquilo que intuimos, a inspiração, o sentido, a visão e aquilo que sentimos que podemos vir a ser. A Terra lembra-nos o corpo, as relações, o trabalho, a matéria, as decisões, as contas para pagar e as consequências das nossas escolhas.

Precisamos dos dois.

Uma vida inteiramente orientada para o Céu pode tornar-se uma forma bastante sofisticada de fugir da Terra. E uma vida completamente absorvida pela Terra pode fazer-nos esquecer que alguma vez tivemos um Céu.

A árvore resolve este dilema com uma simplicidade admirável. Não discute se é mais importante ter raízes ou ramos. Tem ambos. Quanto mais cresce em direção ao céu, mais precisa de aprofundar a ligação à terra.

Talvez connosco aconteça algo semelhante.

Quanto maior a consciência, maior deveria ser a nossa capacidade de a trazer para a vida concreta. Para casa, para o trabalho, para o corpo, para as relações e para a maneira como respondemos quando estamos cansados, frustrados ou contrariados.

É aí que aquilo que aprendemos deixa de ser apenas uma ideia bonita e começa a tornar-se vida.

A cruz invisível dentro do Selo

Quando juntamos estas duas direções, aparece uma imagem muito simples: uma cruz.

Na vertical temos Céu ↕ Terra.

Na horizontal temos Interior ↔ Mundo.

A vertical fala-nos de alinhamento e de Tempo. A horizontal fala-nos de relação e de Verbo.

Uma pergunta: o que está a amadurecer em mim?

A outra: o que estou a fazer com aquilo que já amadureceu?

Estas duas perguntas parecem simples, mas ajudam-nos a reconhecer um dos dilemas mais comuns da vida: há momentos em que precisamos realmente de esperar e há outros em que usamos a espera para evitar agir.

Nem sempre é fácil perceber a diferença.

Por vezes dizemos “ainda não é o momento” e temos razão. Noutras, é apenas o medo vestido com roupa espiritual. Fica mais elegante, mas continua a ser medo.

Quando ficamos demasiado tempo à espera

Podemos viver excessivamente na verticalidade, à espera do momento certo, de mais clareza, de mais confiança, de um sinal ou daquela maravilhosa certeza absoluta que provavelmente nunca chegará.

Há coisas que precisam realmente de amadurecer, mas há outras que só amadurecem quando começamos a vivê-las.

Ninguém aprende a relacionar-se apenas a pensar sobre relações. Ninguém aprende a escrever apenas a ler sobre escrita. E ninguém descobre completamente um caminho antes de começar a percorrê-lo.

O Tempo prepara-nos, mas chega um momento em que precisa do Verbo, caso contrário, podemos passar anos a chamar “preparação” ao que, no fundo, já é adiamento.

Quando fazemos sem saber para onde vamos

Também podemos cair no extremo contrário e viver permanentemente na horizontalidade. Fazemos, decidimos, produzimos, começamos projetos, mudamos de direção, respondemos a mensagens, publicamos, corremos de um lado para o outro e, quando damos por nós, estamos ocupadíssimos sem saber exatamente para quê.

A nossa sociedade tornou-se bastante competente nesta modalidade. Há sempre alguma coisa para fazer e, se por acaso não houver, o telemóvel resolve rapidamente o problema.

O Verbo sem Tempo pode tornar-se movimento sem direção.

Fazemos porque podemos, porque os outros fazem, porque é esperado, porque sempre fizemos ou simplesmente porque parar nos obrigaria a fazer algumas perguntas inconvenientes.

A verticalidade convida-nos ocasionalmente a regressar ao eixo e perguntar: para onde estou realmente a ir?

Não precisamos de fazer esta pergunta todas as manhãs antes do pequeno-almoço. Caso contrário, talvez nunca mais saíssemos de casa. Mas convém fazê-la de vez em quando.

O lugar onde o Tempo encontra o Verbo

Chegamos então ao ponto que mais me interessa nesta reflexão.

Se existe uma vertical entre Céu e Terra e uma horizontal entre o nosso interior e o mundo, quem somos nós nesta imagem?

Talvez sejamos precisamente o lugar onde estas duas direções se encontram.

O centro.

Não somos apenas aquilo que trazemos connosco, nem apenas aquilo que fazemos. Não somos apenas a nossa história, nem aquilo que imaginamos para o futuro.

Somos o lugar onde o Tempo pode transformar-se em Verbo.

O Tempo traz-nos até determinado ponto. Traz a nossa história, as experiências, as relações, as perdas, os encontros, aquilo que aprendemos e até aquilo que ainda não conseguimos aprender, apesar das várias oportunidades que a vida, com admirável persistência, continua a colocar à nossa frente.

Tudo isso chega connosco ao presente. Mas há uma pergunta que o Tempo não pode responder por nós: O que fazemos agora com tudo isto?

É aí que começa o Verbo.

O centro não é um lugar parado

Talvez seja tentador imaginar o centro como um estado perfeito de equilíbrio. Um lugar onde finalmente resolvemos tudo, encontramos o nosso propósito, estamos em paz com o passado e deixamos de perder a paciência no trânsito.

Não me parece que funcione assim.

O centro é muito mais vivo do que isso, é um lugar de encontro e, por isso mesmo, de escolha. A cada momento existe algo que chega até nós através do Tempo e algo que pode partir de nós através do Verbo.

Recebemos e respondemos, sentimos e agimos, compreendemos e escolhemos.

O centro não é o lugar onde deixamos de ter conflitos. É o lugar onde começamos a participar mais conscientemente naquilo que fazemos com eles. Talvez seja essa a verdadeira integração entre verticalidade e horizontalidade. Não precisamos de escolher entre o Céu e a Terra, entre contemplar e agir, entre esperar e fazer. Precisamos de aprender a reconhecer o movimento que cada momento nos pede.

Há alturas em que a vida pede raízes, outras em que pede ramos. Há momentos para permanecer e outros em que permanecer já se tornou uma forma de não avançar.

Nós, entre o Tempo e o Verbo

Talvez possamos então olhar para esta imagem de uma forma muito simples.

O Tempo representa aquilo que nos trouxe até aqui e aquilo que continua a amadurecer em nós. É a história, a experiência, os ciclos, as aprendizagens e o processo através do qual nos vamos tornando capazes de ver e viver coisas que antes ainda não conseguíamos.

O Verbo representa aquilo que fazemos com tudo isso. É a palavra, o gesto, a decisão, a escolha, a relação e a ação através das quais o nosso mundo interior encontra uma forma no mundo.

E nós somos o cruzamento entre ambos.

Somos o ponto onde aquilo que recebemos encontra aquilo que escolhemos fazer com o que recebemos. Onde o passado encontra uma possibilidade de futuro, onde a consciência pode transformar-se em ação e onde aquilo que amadureceu procura finalmente uma forma.

Esta imagem ajuda-nos também a colocar a responsabilidade no lugar certo. Nem tudo depende de nós. Há circunstâncias que não escolhemos, histórias que recebemos, perdas que não pedimos e tempos que não conseguimos acelerar.

Mas existe um espaço onde podemos participar. Esse espaço está no cruzamento e está na forma como respondemos.

O Tempo pode trazer-nos até à porta, pode mostrar-nos a mesma porta várias vezes e, em certos casos, parece até ter uma paciência inesgotável para nos devolver ao mesmo sítio.

Mas há portas que não se abrem com mais uma reflexão. Em algum momento é preciso rodar a maçaneta. Talvez seja isso que significa viver entre o Tempo e o Verbo. Permitir que aquilo que a vida foi amadurecendo em nós encontre uma forma de entrar no mundo.

Trazer o Céu à Terra sem perder as raízes e agir sem confundir movimento com direção. Talvez o Selo, visto desta forma, nos deixe uma pergunta para levar connosco, sem necessidade de responder imediatamente: O que é que o Tempo já amadureceu em mim que está agora à espera do meu Verbo?

 

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